De tras do balcao- visoes V ou O triunfo do Bebado sem muletas
Ele tentou entrar no bar e o porteiro disse nao. Estava limpo e relativamente bem vestido, mas lhe faltava um sapato e algumas boas maneiras. A meia branca já estava negra de tantos desequilibrios. Perdera a muleta por aí, nao lembrava onde, nao lembrava de nada, estava em um nível de embriaguez maior que uma embriaguez. Provavelmente tomara um coquetel de remédios e drogas que desconheço. Ele tentou entrar mais uma vez e o porteiro disse nao. Foi para o outro lado da rua e aí ficou, por uma hora, conversando com alguém que só ele enxergava, jogando para o porteiro palavras que só ele conhecia. E mesmo apoiado na vitrine de uma loja ele se desequilibrava sobre uma muleta imaginária. Dobrava com mais força a perna que tinha sapato para suportar o peso da outra de meias brancas negras, e jogava as costas para tras, num reflexo inconsciente de quem nao tinha mais noçao do peso do próprio corpo. O bar já estava quase vazio e todos riam da cena, comentavam e tentavam imaginar o que o cidadao havia bebido e onde havia perdido suas muletas. Mais uma vez tentou entrar e o porteiro disse nao. Era um porteiro muito paciente, um bom menino. Se fosse outro certamente partiria para a ignorância. E o bebado sem muletas atravessou a rua novamente e posicionou-se em frente a mesma vitrine. Viu passar um senhor vendendo rosas vermelhas e mexeu com ele. Este e o porteiro se entreolharam como quem diz olha o estado do cidadao. O bebado sem muletas insistiu. Mostrou a ele umas moedas. O senhor das flores perguntou se ele queria mesmo compra-la e para quem entregaria. Ele ofereceu as moedas e apontou para o porteiro. Uma rosa vermelha para o porteiro. O bom menino sorriu baixinho e as recebeu sem saber o que fazer com elas. Acabou entregando para uma das garçonetes. O bebado sem muletas nao tentou mais entrar no bar e prosseguiu com seu trajeto em círculos, cambaleando pela rua. O porteiro continuou na porta do bar. Depois admitiu ¨Ele triunfou¨.

2 Comments:
Nada como uma rosa, pura e singela, para triunfar...Mas, de repente, a rosa era mesmo para ser oferecida à garçonete. Talvez fosse isso que o bêbado queria fazer, dar um beijo na garçonete e o porteiro negou. Mas, enfim, fez essa gentileza ao pobre bêbado...
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Mauro Cassane, at 10:01 AM
Historita linda Sarita, un poema cuase como tu querida!
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Nando Pinto, at 10:47 PM
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