Cronicas de Barcelona

Sunday, March 20, 2005

Foi de táxi... quem sabe

Estou ansiosa para falar da cena que acabo de ver. Um táxi parado na esquina do meu prédio e um beijo estilo Casablanca com língua do taxista na passageira sentada no banco da frente. Fiquei nervosa. Primeiro, porque nunca vi, segundo, porque muito ouvi- histórias de passageiras que se envolvem com taxistas- e terceiro, porque esta é uma das profissões que mais me interessa em termos antropológicos. Explicações possíveis para a cena. Eles não eram um casal pré-formado, casados ou namorados, porque senão ele diria desce logo que tenho que trabalhar. Acredito que ela era uma cliente que sempre o chama, e desde sempre, ou uma vez, meio que por acaso ou carência, descobriu que ele era atraente ou ele falou alguma coisa que o deixou atraente, ou muitas coisas até que de repente o beijo, e outros e outros beijos, e a hora da despedida é a mais triste mas não deixa de ser com um beijo. E pode ser que depois do beijo outras cositas mais, num hotel, na casa dela enquanto o marido viajava, ou na casa dele enquanto a mulher trabalhava. Ou nem um nem outro é casado e um romance começou ou está para começar. Se fosse no Rio de Janeiro eu chegaria a pensar na possibilidade de ela ter se dado conta de que não levava dinheiro e disse assustada “ e agora?” e ele respondeu “agora vem aqui que te mostro como pagar essa conta” e ela era tão neurótica ou tão tarada que não pensou em não ir. E depois do primeiro beijo tiveram outros, o seguinte sempre melhor que o anterior, até que o celular de um dos dois tocou anunciando a despedida Casablanca com língua.
Bom, essa história toda na verdade é só uma introdução porque eu já estava há tempos com vontade de escrever sobre os taxistas de Barcelona.
Já reparei que os espanhóis de uma maneira geral não tem muita vocação para o trabalho- dizem que na Catalunia não é assim, então imagina só como é o resto do pais- e com os taxistas não é diferente. Nunca vi outro lugar no mundo com taxistas tão pouco ambiciosos, para não dizer preguiçosos. Em primeiro lugar, é praticamente impossível ficar parado na rua esperando um táxi passar com a luz verde acesa. Dependendo da rua e da hora pode tardar mais de uma hora. E depois, táxi com luz verde acesa não significa, como deveria significar, que está disponível e que ele vai parar e você vai entrar. Se o taxista simplesmente não for com a sua cara ele não vai parar. Se ele estiver indo para casa almoçar ou jantar ele pode não parar, ou vai perguntar para onde você quer ir e só vai te aceitar se o seu trajeto não o fizer desviar uma rua sequer do dele. Se você estiver carregando alguma mala, por menor que seja, é bem possível que ele também não pare. A solução muitas vezes é chamar por telefone. Geralmente chegam rápido mas com 3 euros a mais no taxímetro. E não espere mais nada deles, nem simpatia, nem conversas divertidas, nem sessões de análise. É claro que sempre existem exceções. A nossa amiga do beijo Casablanca com língua que o diga.

2 Comments:

  • Mesmo sem sua permissão, e tomando emprestado seus olhos, darei minha versão à inusitada cena.
    É domingo e o pobre taxista está deixando sua amada em casa. O taxi nem dele é, trabalha para um espertalhão astuto que tem cinco carros na praça. Ganha uma grana, mas 40% fica para o patrão. A garota, ambiciosa e empreendedora, quer mais, não se conforma com pouco. Ele não tem muito a oferecer, foi criado por aquela família machista e tradicional, e nunca gostou muito de ir à escola, e o pai também achava perda de tempo. Agora ele a deixa em casa, ela tão linda e sensual, com seus sonhos para percorrer o mundo, ele a beija com um derradeiro beijo, ela vai partir. Em minutos subirá a seu apartamento, pegará suas malas e ele a leverá ao aeroporto. Ele mesmo, que tanto a ama, a levará embora. Não sabe se ela voltará, mas sabe que vai esperá-la. Acha a vida de taxista uma droga, odeia inclusive Barcelona e essas ruas pustiças, odeias todos os passageiros, especialmente os nativos. Gosta apenas dos turistas, pelo menos sorriem e ainda se encantam com coisas triviais. O mundo não lhe sorriu muito, e seu maior motivo de alegria agora partiria. Que droga de domingo. Ao menos um lindo beijo à Casablanca, "ainda bem que aquela moça bonita me viu, quem sabe ela conte uma boa história, com mais cor que esse irritante cinza de minha vida". Foi o que ele pensou ao te ver.

    By Blogger Mauro Cassane, at 9:36 AM  

  • Oi Sara, td bem? Gostei demais dos seus escritos... puxa, ai em Barcelona pelo visto, vc anda tendo muitas "materias primas" para cronicas... eu to no trampo e não direito o restante, em casa vou olhar com mais atenção. Beijão, se cuida ai! Inté!

    By Anonymous Gleuber Militani, at 12:57 PM  

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