Cronicas de Barcelona

Wednesday, March 16, 2005

Sinceridade demais...

As vezes atrapalha. E tanto que me deixou toda atrapalhada. Foi uma tonteria ( palavra muito usada por aqui, quer dizer “uma besteira, coisa de gente tonta”), mas sabe aquelas tonterias que nos fazem pensar, que nos deixam com raiva, mas muita raiva de nós mesmos, um pequeno deslize que te remete a tantos e tantos outros e então você diz “ putaqueopariu, eu sou muito burra, não aprendo nunca!”
Estou trabalhando em um bar, como já contei aqui. Certa noite uma cliente muito simpática veio me perguntar se eu também trabalhava como azafata. Parênteses para explicar essa palavra que me provoca risos. Tem algumas palavras em espanhol que considero muito engraçadas: azafata, sencillo, a própria tonteria, cachonda... Bom, azafatas são aquelas meninas que trabalham em eventos, congressos, feiras, até aeromoça é azafata, “azafata de vuelo”. Fecha parênteses. Respondi que sim, talvez, de repente... Ela estava buscando meninas para trabalhar no Salão do Automóvel, 10 dias, 10 horas por dia sorrindo para aficionados por carros, 100 euros por dia. Total, mil euros. Ai eu respondi com mais ênfase que sim e dei a ela meu telefone. Na semana seguinte me ligaram da agencia e eu não atendi. Fiquei enrolando pra responder e só retornei na outra semana. Disseram para eu ir lá o quanto antes, as nove da manhã, porque só faltavam mais dois clientes. Cheguei ao meio-dia. A agencia estava lotada de meninas para uma seleção. Deram uma ficha para eu preencher e pediram que esperasse. Fiquei sentada preenchendo tudo bem lentamente, olhando pros lados e analisando o nível das minhas “concorrentes”. Logo entrei numa viagem egóica. Achei que meu nível físico (incluo a maneira de se vestir, maquiar, pentear ) e intelectual não correspondia àquele ambiente. Só estava ali porque era Espanha, euros, ninguém me conhece. E se meu nível era superior ao daquelas meninas era lógico que o cliente iria gostar de mim e ficaria muito feliz de me conhecer, afinal, eu era muito mais do ele que esperava. Me perdi nessa viagem egóica e quando vi já estava dentro de uma sala, cara a cara com a cliente e a diretora da agencia. Meu rosto estava exageradamente relaxado para uma entrevista de trabalho, recém havia saído de uma gripe de cinco dias e de uma viagem egóica de vinte minutos. Não estava muito preocupada, pensava que no máximo eu teria de dar uma voltinha. Mas não. Começaram a perguntar sobre minha experiência como azafata, meus estudos... Falei que fui azafata em alguns eventos no Rio, onde na verdade trabalhei como jornalista. Depois a cliente perguntou se eu gostava de carros. Eu não entendo nada, não tenho o mínimo tesão em carros e fui tão natural e sincera, como se aquilo fosse uma conversação informal, que acabei falando do sistema de transporte público de Barcelona, que era tão bom que não sentia a necessidade de ter um carro. A diretora da agencia interrompeu meu discurso “Acho que ela não entendeu sua pergunta” Ai que me dei conta que não estava no sofá de casa. “Ah, se eu gosto de carros, assim, se gosto? Ah, gosto, não sou de comprar aquelas revistas, mas gosto...” , falei, sem credibilidade nenhuma. “Ah, ta bom, era só para te conhecer melhor. Qualquer coisa a gente entra em contato”, disse a cliente. Fui embora certa de que ela não me chamaria. E não chamou. Depois fiquei o dia todo pensando na minha ingenuidade, na mania de subestimar as coisas e na burrice de achar que sou inteligente demais para determinados papéis. Sei que me livrei dos 10 dias mais chatos da minha vida, mas também me livrei de mil euros. E não é fácil para quem vem de um pais de terceiro mundo arrancar mil euros dos espanhóis.

2 Comments:

  • Boa essa sua lição. Mas, se me permite, creio que vc não iria mesmo gostar de ficar 10 dias enfiada num salão de automóvel...Cobri esse setor há mais de uma década e, te digo, não valeria mil euros não. Vc escreve com bastante elegância. Parabéns. Talvez vc nem tenha tempo, ou vontade, mas se quiser ler algo meu dê uma passada no meu blog (www.souzacas.blog.uol.com.br). Ele é feito como um tributo a uma pessoa especial que mudou tudo em minha vida. Certas pessoas passam, outras nos transformam.
    bjs

    By Blogger Mauro Cassane, at 5:05 AM  

  • Desculpe responder sua pergunta em seu próprio blog, mas como não tenho outra opção farei aqui mesmo. Se quiser, meu e.mail e msn é mpulp@hotmail.com
    Sua pergunta é bem interessante, mas eu te respondo que cada linha de meus textos descreve, em minúcias, essa mulher que amo.
    Amar é algo muito louco, e extremamente inspirador, mas também é um perigoso paradoxo, pois um simples gesto pode nos levar à mais extasiante felicidade e outro, quase imperceptível, pode nos levar à mais terrível depressão. Muitas vezes, diante de certos sofrimentos e decepções, o próximo estágio, que seria o Inferno, é algo tão esperado como uma farta e suculenta refeição. Tenho medo de gente, por isso prefiro caminhar e refletir pelas alamedas do cemitério. Mas não sou um pária, só tenho fobia a excesso de pessoas, de olhares, de cheiros humanos e de gente sem alma. Obrigado por sua visita em meu blog e reitero que realmente vc escreve muito bem. Se um de meus sonhos no mundo editorial der certo, certamente me lembrarei de ti.
    bjs

    By Blogger Mauro Cassane, at 10:31 AM  

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