A ßarcelona de verdade
Acabavamos de nos conhecer e ele já veio falando que queria me mostrar outra Barcelona, uma Barcelona de verdade. Era intuitivo o basco. Adivinhou minha adoraçao por lugares exóticos, undergrounds e me rebocou uma noite dessas, depois do trabalho- as 6 da manha-, para o Selmos, segundo ele, o melhor bar da cidade.
Ficava na planta baixa de um prédio normal, numa rua normal. Mas a entrada nao era nada normal. Grades e dois seguranças nada simpáticos que só faltavam pedir uma senha. Dez euros para entrar, com direito a consumaçao. Pagamos e entramos. O espaço, de uns 30 metros quadrados, tinha um balcao grande, mesas e um palco em um dos cantos. Decoraçao tosca sem exageros. Música pop espanhola com intervalos de eletronicas e interferências de amadores no karaokê. Uma loira, quase fosoforescente, decorava o palco intimista. Passou boa parte da noite ali, sentada estática em um banco bem alto, movendo só os olhos, meio Monalisa. Difícil nao mover os olhos num lugar como aquele. No caso dela, em busca de algum cliente fim de noite. No meu caso, em busca de personagens. Todos ali eram personagens em potencial. Desde o garçon de camisa e olhos bordôs, gravata preta e cara de ator pornô aposentado, passando por um Axl Rose aos 60 anos e 40 quilos, por um grupo de jovens moderninhos e por um senhor de 80 anos, libido em alta e olhar baixo para o rebolado do grupo de putas que prestigiavam a amiga no karaokê. Sentamos numa mesa. De um lado, duas mulatas, de outro, um gigante e um anao, ambos com rostos agressivos. Cumprimentei a mulata mais simpática, que dançava uma música e sentava em outra. Descobri que era portuguesa e seguimos falando em espanhol ( é mais fácil entender um portugues assim) “Onde você trabalha?” perguntou. Respondi no bar tal, de garçonete. Ela olhou desconfiada, disse que nao conhecia o bar e trocou de assunto. Ficamos melhores amigas. Um baixinho, sem dentes, cabelos rarefeitos e olhos pegando fogo nos abordou dançando. Ela virou a cara e cochichou “ Ele é pobre e viado!” Logo depois ela me interrompeu enquanto eu caminhava até o banheiro. Apresentou-me para dois “amigos” e tentou beijar-me na boca. Desviei o rosto e segui adiante. Era a terceira na fila do banheiro. Na minha frente, uma loira de jeans coladérrimo nos alguns muitos quilinhos a mais. Quando chegou a vez dela, uma chinesa bem mais magra ia posicionar-se atrás de mim na fila. A loira deu meia volta, apertou forte o braço da china e falou “Antes de olhar um homem ve bem quem esta com ele.” E fez um discurso de que era muito mulher, que ninguém podia com ela nem com o homem dela, e nao deixava a china falar. “Posso ir na sua frente enquanto voces discutem”, falei, apertada. “De jeito nenhum. Vou mijar e voce me espera aqui que eu ainda nao acabei”, disse para a china. Ela mijou, eu também, e a discussao nao terminava. A loira sempre falando as mesmas coisas e sem dar chances da china se defender. Sai do banheiro rindo escondido e fui contar a história pro meu amigo basco. Ele também riu e disse que agora era a vez dele ir no banheiro. Levantou e esbarrou num drink que estava sobre nossa mesa. Azar. Era do gigante de rosto agressivo. Mais confusao. Ele nao berrava como a loira, falava mais com os olhos, nada delicados, que o basco deveria pagar a bebida. Detalhe: o drink já estava quase no fim. Meu amigo se revoltou e o bar se dividiu. Metade do lado do gigante, metade do nosso lado. Eu nem lembro como foi dado o veredicto, só lembro que acabou tudo bem e nao precisamos reembolsar os 30 ml de rum do gigante. Meu amigo foi ao banheiro e um apaziguador veio me falar. “ Besteira do cara. Pode curtir aquí com seu marido que já está tudo resolvido.” Oito da manha. Acenderam as luzes. Todos na rua. O cadeado ansioso para fechar a porta de grade. Os personagens ansiosos por outros personagens, talvez autores. Eu ansiosa para comer e dormir, feliz com minha primeira experiencia na Barcelona de verdade.
Ficava na planta baixa de um prédio normal, numa rua normal. Mas a entrada nao era nada normal. Grades e dois seguranças nada simpáticos que só faltavam pedir uma senha. Dez euros para entrar, com direito a consumaçao. Pagamos e entramos. O espaço, de uns 30 metros quadrados, tinha um balcao grande, mesas e um palco em um dos cantos. Decoraçao tosca sem exageros. Música pop espanhola com intervalos de eletronicas e interferências de amadores no karaokê. Uma loira, quase fosoforescente, decorava o palco intimista. Passou boa parte da noite ali, sentada estática em um banco bem alto, movendo só os olhos, meio Monalisa. Difícil nao mover os olhos num lugar como aquele. No caso dela, em busca de algum cliente fim de noite. No meu caso, em busca de personagens. Todos ali eram personagens em potencial. Desde o garçon de camisa e olhos bordôs, gravata preta e cara de ator pornô aposentado, passando por um Axl Rose aos 60 anos e 40 quilos, por um grupo de jovens moderninhos e por um senhor de 80 anos, libido em alta e olhar baixo para o rebolado do grupo de putas que prestigiavam a amiga no karaokê. Sentamos numa mesa. De um lado, duas mulatas, de outro, um gigante e um anao, ambos com rostos agressivos. Cumprimentei a mulata mais simpática, que dançava uma música e sentava em outra. Descobri que era portuguesa e seguimos falando em espanhol ( é mais fácil entender um portugues assim) “Onde você trabalha?” perguntou. Respondi no bar tal, de garçonete. Ela olhou desconfiada, disse que nao conhecia o bar e trocou de assunto. Ficamos melhores amigas. Um baixinho, sem dentes, cabelos rarefeitos e olhos pegando fogo nos abordou dançando. Ela virou a cara e cochichou “ Ele é pobre e viado!” Logo depois ela me interrompeu enquanto eu caminhava até o banheiro. Apresentou-me para dois “amigos” e tentou beijar-me na boca. Desviei o rosto e segui adiante. Era a terceira na fila do banheiro. Na minha frente, uma loira de jeans coladérrimo nos alguns muitos quilinhos a mais. Quando chegou a vez dela, uma chinesa bem mais magra ia posicionar-se atrás de mim na fila. A loira deu meia volta, apertou forte o braço da china e falou “Antes de olhar um homem ve bem quem esta com ele.” E fez um discurso de que era muito mulher, que ninguém podia com ela nem com o homem dela, e nao deixava a china falar. “Posso ir na sua frente enquanto voces discutem”, falei, apertada. “De jeito nenhum. Vou mijar e voce me espera aqui que eu ainda nao acabei”, disse para a china. Ela mijou, eu também, e a discussao nao terminava. A loira sempre falando as mesmas coisas e sem dar chances da china se defender. Sai do banheiro rindo escondido e fui contar a história pro meu amigo basco. Ele também riu e disse que agora era a vez dele ir no banheiro. Levantou e esbarrou num drink que estava sobre nossa mesa. Azar. Era do gigante de rosto agressivo. Mais confusao. Ele nao berrava como a loira, falava mais com os olhos, nada delicados, que o basco deveria pagar a bebida. Detalhe: o drink já estava quase no fim. Meu amigo se revoltou e o bar se dividiu. Metade do lado do gigante, metade do nosso lado. Eu nem lembro como foi dado o veredicto, só lembro que acabou tudo bem e nao precisamos reembolsar os 30 ml de rum do gigante. Meu amigo foi ao banheiro e um apaziguador veio me falar. “ Besteira do cara. Pode curtir aquí com seu marido que já está tudo resolvido.” Oito da manha. Acenderam as luzes. Todos na rua. O cadeado ansioso para fechar a porta de grade. Os personagens ansiosos por outros personagens, talvez autores. Eu ansiosa para comer e dormir, feliz com minha primeira experiencia na Barcelona de verdade.

1 Comments:
O lugar, não fosse pelo preço, lembra um pouco Love Story de uma Sampa que poucos conhecem....Também adoro os cantos, os subterrâneos das metrópoles. Nesses lugares que a gente conhece a essência da cidade. Sempre adorei, visitava sempre o cemitério da Consolação pra conversar um pouco com Osvald de Andrade, os pubs decadentes da Augusta e os bares da S. João...Há uma certa poesia maldita nisso, me lembra muito "Subterrâneos", de Kerouak...seu texto tá nesse ritmo beat...
Bem legal...
bjs
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Mauro Cassane, at 10:13 AM
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