Cronicas de Barcelona

Tuesday, April 19, 2005

Voce conhece o Richard "Guere"?

Sabe aquela sensaçao de vergonha ao falar inglês com alguém que domina a língua mais do que você? Aquele medo de escorregar em alguma pronúncia? Pois eu já senti e imagino que muitos brasileiros já sentiram. Felizmente ou infelizmente nenhum espanhol, imagino, já sofreu esse tipo de insegurança. O medo do ridículo que acomete os daqui é justo o contrário. Se alguém perguntar. “Ei, você assistiu o último filme do Richard ´Guiar`?” receberá como resposta um “ Ih, onde ele pensa que está…” ou “ Como está este…” Por isso aqui todos falam exatamente como se escreve: Richard "Guére". E assim espanholam tudo que é inglês. A banda U2 para eles é U dos. O whisky Cutty Sark tem o U ibérico. Four Roses é forroses. ( imagina meu desespero para entende-los nos primeiros dias no bar!) E nao é só pelas pronúncias surreais que percebemos a falta de amizade dos espanhóis com o inglês. A porcentagem de pessoas que dominam o idioma britânico é ridícula se comparada a muitos países, inclusive com o Brasil. Muitos só vao a uma escola de ingles se tiverem um trabalho que realmente o exija. E ainda assim continuam falando Richard "Guére". “Vocês no Brasil precisam muito mais porque estao mais perto dos EUA. Aqui nao precisamos”, comentou certa vez um cliente do bar. Nao me surpreende ouvir isso de uma pessoa que passou a vida inteira assistindo filme dublado no cinema e acha maravilhoso, a coisa mais cômoda do mundo. Pergunto: “Nao te incomoda? Acho que perde metade da interpretaçao.” Responde: “ Lógico que nao. Me incomoda se colocam outro ator para fazer a voz do Richard ´Guére`”. Sim, porque cada ator famoso tem seu dublador fixo ( que pode adoecer ou morrer de repente) e alguns viram até celebridades. É o caso do “ voz” do Woody Allen. Este já virou melhor amigo espanhol de infância do ator-diretor e está sempre a seu lado em fotos de jornais e revistas.
A culpa de tudo isso, mais uma vez, é de Franco e seu militarismo exacerbado. No auge da ditaduta promulgou uma lei que proibia a entrada de qualquer filme na Espanha sem que fosse devidamente falado em espanhol. E trocava as falas como melhor lhe apetecesse ou favorecesse seu regime. Anos depois de sua morte, nada mudou e dificilmente mudará. A verdade é que ninguém se importa, pelo contrário, morrem de preguiça de ler legendas.
A traduçao dos títulos dos filmes merece um capítulo a parte. Assim como no Brasil, um simples título pode afastar um bom filme de seu público alvo. Foi o caso de “Eternal Sunshine of the Spotless Mind”, que no Brasil chegou como “ Brilho eterno de uma mente sem lembranças, e aqui se transformou em “ Olvida-te de mi!” ( “Esqueça de mim!”). Imagina um filme com este título protagonizado por Jim Carrey. Enquanto alguns perdiam um ótimo filme, muitos adolescentes e adultos Blockbuster saíam do cinema indignados: “ Porra! O que aconteceu com o Jim Carrey?!?!”

3 Comments:

  • sarita querida, adoro ler suas crônicas
    bom te ver aproveitando muito Barcelona
    por nosotros,
    aprovetche bien

    By Anonymous Nando Alves Pinto, at 9:13 PM  

  • Ah, publique mais traduções européias de títulos, se as tiver. São tão engraçadas!

    Por aqui, o "Eternal sunshine" não está assim tão bem traduzido; o título do filme é um verso do Alexander Pope, e a mente está antes "imaculada" do que "sem lembranças". Veja como a "mente imaculada" tem uma conotação muito diferente, e como isso se relaciona com o filme - o título deixa de ser uma frase de efeito descritiva para já sugerir uma interpretação.

    By Anonymous Pedro Sette Câmara, at 6:12 PM  

  • Brilho Eterno de uma mente sem memória...Se existisse mesmo uma cirurgia daquelas, acho que tentaria!!! Sarita, o escraboso Franco aprontou das suas e acho que contribuiu muito para emburrecer algumas gerações posteriores. Eu ainda sou da opinião que não existe Primeiro Mundo em termos culturais, somente em termos econômicos.

    By Blogger Mauro Cassane, at 6:50 PM  

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